Pitbull

De onde vocês são? São Paulo? Eu morei lá por um bom tempo, mas depois vim embora, não aguentei ficar lá não. Se eu contar minha história para vocês, vocês vão chorar.Pitbull

Sentados em uma praça de Bananal, interior de São Paulo, um homem simples e com roupas um pouco encardidas nos abordou pedindo para que aumentássemos o volume de seu celular.

O celular, um aparelho de modelo mais antigo, destes que a melhor tecnologia é a rádio FM, e o homem, um destes humanos que te aborda de forma engraçada apenas para ter com quem conversar.

Ele começou a dizer que escrevia poemas, e pediu para recitar um deles, e nós por ignorância não registramos nada das palavras ditas por ele.

O cara traçava semelhanças entre o homem e os animais, e trazia a natureza para a história de uma mulher amada. Era lindo, e era recitado com bastante confiança. No final nos perguntou se fazia sentido o que havia escrito. E fazia.

Ele se apresentou como Pitbull ou Rotweiller, a forma como os moradores de Bananal o conheciam. O apelido não era por ser bravo, mas por uma vez uma moça ter lhe perguntado o que achava dela, e ele ter respondido algo como:

– Você é como um fruto na natureza, não muito bonito, não muito gostoso, mas o que de melhor a natureza poderia dar.

Depois de nos ter perguntado se havia feito errado com a moça:

– De onde vocês são? São Paulo? Eu morei lá por um bom tempo, mas depois vim embora, não aguentei ficar lá não. Se eu contar minha história para vocês, vocês vão chorar.

Pitbull era de Bananal e tinha ido para São Paulo trabalhar, tinha esposa e 2 filhos, até que um dia foi preso por engano, um cara com o mesmo nome que ele tinha roubado um banco. Passou por algumas cadeias, inclusive pelo Carandiru:

– Sai de lá 1 mês antes de acontecer aquela tragédia, graças a Deus (dizia ele batendo em sua própria cabeça).

Durante esse tempo foi torturado por agentes policiais para que dissesse onde estava o dinheiro, perdeu o nascimento de uma de suas filhas, e ficou com algumas marcas nos dedos. Um dia reconheceram que não era ele o culpado, e então saiu da cadeia.

Pitbull conseguiu se reestabelecer e arranjou um emprego em uma marcenaria, até que um dia foi abordado em seu próprio trabalho por porte ilegal de arma. Novamente havia sido preso por crimes cometidos por outra pessoa.

Desta vez, não sabemos por quais motivos, a família se desligou dele enquanto estava na cadeia:

– Era Natal, Natal de preso é uns dias antes, foi no dia 23, então peguei uns palitos de sorvete e fiz 2 casinhas para os meus filhos. Fiquei lá esperando ansioso eles chegarem, vi todos os familiares dos meus colegas chegando, depois que chegou todo mundo, vi que eles não tinham ido. Me escondi debaixo de umas camas de concreto que tinha lá e comecei a chorar, meus colegas me tiraram de lá e disseram que eu não poderia ficar assim, e me colocaram para curtir o natal com os familiares deles.

Pitbull saiu da cadeia novamente, e diz que hoje a filha é Administradora de Empresas e o filho é Engenheiro Mecatrônico, que de vez em quando ligam para saber como ele está, mas não ligaram no aniversário dele, e nem no Natal, e que estava esperando para ver se ligariam no Ano Novo.

Depois da segunda prisão injusta, Pitbull decidiu voltar para Bananal e começou a beber muito. Lá fazia alguns bicos, até que um dia enquanto fazia uns reparos no telhado da prefeitura, decidiu beber uns 2 copinhos de pinga e ficou com vontade de subir na torre de telefone da cidade:

– Eu subi lá igual o Godzilla e fiquei pendurado! O pessoal se juntou tudo aqui nessa praça e ficou me olhando apavorado, veio até bombeiro do Rio de Janeiro pra me tirar, mas eu falei que eu ia descer, e eu desci.

Sua irmã, uma pessoa muito boa com uma fazenda muito grande em Mato Grosso sugeriu colocá-lo em um hospício muito bom, e ele aceitou dizendo ser um “tempo para descansar”.

– Colocaram aquele mata-leão em mim, e fui parar lá no lugar. Quando acordei vi uns cordões de baba dos caras do meu lado, achei estranho, mas tudo bem, levantei e fui conversar com um cara. O cara pegou um giz, desenhou no chão e falou “agora vamos passar por baixo”. Depois disso mandei ele tomar no cu, e fiquei na minha.

Pitbull recebeu indenização por conta das prisões injustas, e disse que hoje a irmã de Mato Grosso cuida do seu dinheiro, fazendo com que seu aluguel fique sempre em dia. Tem uma namoradinha de Resende, que vai visitá-lo em Bananal para arrastar o pé no forró da praça da cidade, e que quando liga para ele, faz o seu dia se iluminar.

E enquanto toma suas pinguinhas e arruma uns biquinhos por Bananal, parece ficar a procura de alguém para contar sua triste história.

Autor do Post
Mari Sanefuji
Joseense de 24 anos, que há 6 anos decidiu se mudar para São Paulo para trabalhar no ramo da Publicidade como Gestora de Mídias Sociais. Posso me descrever como uma mente inquieta sempre em reflexão sobre o mundo, e sobre a mim mesma.

Deixe uma resposta

Top