Marcelo – Rio de Janeiro

Claro que não, vou ficar tranquilo hojeMarcelo

Era sábado já passava das 22h, eu e Mari estávamos no Rio de Janeiro, na Escadaria Selarón, um dos lugares urbanos mais bonitos e especiais que já passei. Apesar do horário e de todos falarem do perigo do Rio de Janeiro, era uma noite onde tudo estava dando certo, então ficamos sem nenhuma preocupação. O lugar era muito bonito, fazendo jus a fama que tem.

Estávamos tranquilos e dando risada, foi então que conhecemos Marcelo, que estava sentado no muro ao lado da escada, nos chamou para bater um papo, subimos o muro e nos unimos a ele.

Marcelo começou perguntando se a Mari era chinesa (no RJ todos se impressionavam com o traço dela), dissemos que não. Essa foi a deixa para ele começar a contar a sua história.

Começou falando que era um viajante. Os pais morreram quando ele era jovem, e deixaram a casa como herança. Nos disse que a casa era muito grande, e não era pra ele, foi então que Marcelo nos contou seu “truque” para viver viajando. Vivia do aluguel da casa.

Marcelo já tinha mais de 40 anos, mas com o espírito muito jovem, um espírito de viajante, espírito de mochileiro.

Disse que viveu muito tempo morando em hostels, ficava dias, semanas, meses, em um mesmo hostel, não precisava ir embora, fazia do hostel sua casa. Um sentimento momentâneo de inveja passou por mim haha.

Como já era de se esperar, tinha grandes histórias, daquelas que você pensa “como isso pode ser verdade”.

Continuou nos contando de uma vez que namorou uma russa, que nenhum dos dois entendiam nada do que o outro falava, mas no final das contas se davam muito bem. O relacionamento durou alguns meses mas não deu certo.

O assunto voou para outro lugar, e começamos a conversar sobre o Peru. Faziam poucos meses que eu tinha ido para o Peru, ficamos lembrando dos lugares que tínhamos visto, e apresentando outros que o outro não tinha conhecido. Sempre bom ter uma conversa destas.

O papo estava bom, mas ainda íamos subir o morro de Santa Teresa para jantar.

Passado o dia.

No domingo estávamos ali no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial (Monumento dos Pracinhas, segundo Marcelo), foi quando novamente o encontramos. Estava de regata, boné pra trás e andando de longboard. De longe ele também nos viu, e já veio nos cumprimentar. Dessa vez tínhamos mais tempo pra conversar, e mais histórias para ouvir.

Começou nos contando sobre o Parque Lage, muito visitado por conta do seu design, é um antigo palácio que hoje se tornou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Disse que o principal de lá não é a escola, ou a história do palácio, e sim uma trilha que sai do parque. O destino são algumas cavernas, locais onde os escravos da época da colônia dormiam. Marcelo realmente sabia das coisa tudo.

Continuou a conversa até nos perguntar se a gente surfava. Dissemos que não, então continuou dizendo que surfava e por isso quase morreu. Era um dia que estava ventando muito, e as pessoas estavam avisadas para não irem ao mar. Marcelo disse que queria muito surfar, e nem ligou para os avisos, achou que estavam falando da boca pra fora.

Nessa época ele estava morando com a irmã, no Rio de Janeiro mesmo, e no momento que estava saindo, a irmã dele o parou e perguntou:

– “Você não esta indo surfar não né? Está perigoso hoje Marcelo, você NÃO VAI PRA LÁ!”

– “Claro que não, vou ficar tranquilo hoje”

Saiu de casa e foi direto pro mar. E nos confirmou que realmente o mar estava muito forte. Infelizmente só percebeu isso quando já estava com a prancha na água.

Bastou poucos minutos para uma onda o engolir, nos contou que deu tempo apenas de sentir a onda batendo nele, deu algumas cambalhotas dentro da água antes de desmaiar.

Falou que nunca tinha sentido nada igual, era como se tivesse saído do próprio corpo. Quando do nada, ele acorda na beira da praia, com salva vidas e bombeiros ao redor dele, tinha machucado o corpo inteiro, partes do corpo que ficaram em carne viva.

Uma experiência de louco, mas que o fez sentir ainda mais a alegria e a sorte de estar vivo nesse mundo.

Marcelo terminou nos dando dicas sobre Trindade, segundo ele, local das melhores praias do Brasil. Como nunca tínhamos ido pra lá, não pudemos confirmar. Então nos falou pra ir logo pra lá, e quando formos procurarmos a Praia do Antigo, e a Praia dos Antiguinhos.

Segundo ele as melhores praias do Rio de Janeiro. Onde cachoeiras encontram o mar.

Nos despedimos com aquele sentimento de ter conhecido um companheiro de estrada, daquelas pessoas que sentimos sintonia de primeira, o prazer de conhecer alguém que anda pelas estradas desse mundo, nas estradas dessa vida.

Paulistano de 26 anos, que ainda mora em São Paulo, e trabalha como Analista de Sistemas. Alguém que só percebeu o tamanho do mundo quando colocou pela primeira vez a mochila nas costas, e a partir de então passou a enxergar o mundo em uma outra perspectiva. Uma perspectiva menos “de eu” e mais “de todos”. Uma pessoa que vive em uma utopia de crer que o mundo pode ser um lugar diferente.

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