Lena*

O pessoal das outras favela acha a gente aqui de nariz empinado, por que a gente é da Zona Sul, por causa do nosso estilo, por que você sabe né, cada favela tem um estilo diferente, uma moda diferente.Lena

Encontramos a Lena durante o café da manhã, ela era camareira no hostel que estávamos no Morro do Vidigal, e enquanto não tinha serviço para fazer, gostava de ficar conversando com os hóspedes e com seus colegas de trabalho.

Lena era uma pessoa muito extrovertida, e decidida sobre sua vida. Nascida e criada no Morro do Vidigal, falava de lá com orgulho e com muita propriedade.

Era casada com um homem mais novo, tinha uma filha jovem, a qual nos mostrou sua foto com muito orgulho, e um filho pequeno.

Começou a conversa dizendo que havia conhecido um casal de Santos no hostel, e que se deram tão bem, que se adicionaram no Facebook e hoje estavam a chamando para visitar o litoral paulista.

Lena contava sobre algumas de suas viagens quando era mais jovem, falava de algumas aventuras com o seu marido, e dava risadas lembrando de suas histórias. Contou sobre uma vez que foi passear na Rocinha:

– Lá na Rocinha tem tudo né, tem Subway, tem McDonald’s, tem banco, e um dia a gente foi lá comer um japonês. O pessoal das outras favela acha a gente aqui de nariz empinado, por que a gente é da Zona Sul, por causa do nosso estilo. Por que você sabe né, cada favela tem um estilo diferente, uma moda diferente. Só que lá o pessoal é muito louco mesmo. Você acredita que eu cheguei lá e vi uma mãe fumando um e passando pros filhos? E enquanto ela bolava outro, os outros filhos pequenos estavam bagunçando e de repente derrubaram a televisão do restaurante, e nossa, que bagunça. Nunca tinha visto uma coisa dessa!

E morria de rir com a história.

Depois de trocarmos bastante ideia, perguntamos sobre o que ela achava da pacificação do Vidigal:

– Foi bom, foi bom, a violência diminuiu bastante, tá bem mais tranquilo. Mas olha, anos atrás tinha um pagode ali embaixo, os caras bateram lá e não deixaram acontecer mais. Não sei por que, mas desde então a gente não pode mais promover festa aqui.

– De vez em quando os polícia quer bater de frente, quer encher o saco, mas eu falo mesmo, não tenho muito medo não, então eles não tem muita folga comigo. O meu marido também, ele sabe se defender, então não mexem muito com a gente não. Mas de vez em quando eles aparecem lá em casa pra dar uma olhada. As vezes tem vizinho que por birra faz denúncia pro policial, daí o policial tem que ir na casa dos outros, tem dessas coisas.

Ela também contava sobre alguns artistas que haviam saído do Vidigal, e falava super orgulhosa sobre o sucesso deles e de suas origens.

No final pediu para nós a adicionarmos no Facebook, encontramos o seu perfil mas na hora de adicionar o Facebook emitiu um alerta pedindo para que não adicionássemos quem não conhecíamos. Tentamos várias vezes, mas o Facebook não permitiu.

Não sabemos por que haviam emitido esse aviso para nós, mas decidimos não falar para ela, dissemos que depois procuraríamos o seu perfil. Tentamos outras vezes, e não deu certo, dessa forma não conseguimos manter contato, e não tivemos a oportunidade de chamá-la para conhecer São Paulo também.

*Lena é um nome fictício para uma personagem real.

Autor do Post
Mari Sanefuji
Joseense de 24 anos, que há 6 anos decidiu se mudar para São Paulo para trabalhar no ramo da Publicidade como Gestora de Mídias Sociais. Posso me descrever como uma mente inquieta sempre em reflexão sobre o mundo, e sobre a mim mesma.

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